Porque La La Land é sensacional

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Desde que La La Land ganhou o maior número de Globos de Ouro da história (sete deles, o exato número de indicações) e alcançou os filmes Titanic e A Malvada no número de indicações ao Oscar (catorze), muitos tentam descobrir o que o filme tem de tão especial para se tornar queridinho dos críticos. No meio de tanta especulação, ouvi muita gente dizer que não viu o diferencial do filme, que não curtiu a hype, que não achou nada demais. Esse post serve então para explicar aos desavisados porque esse filme é tão sensacional.

Primeiramente é preciso entender que La La Land é uma obra que junta diversos momentos icônicos de musicais que encantaram gerações, desde Cantando na ChuvaWest Side Story. Várias das cenas são referências a momentos icônicos desse gênero, como podemos ver nesse vídeo. O que o filme pretende ao resgatar esses referenciais é misturar o glamour dos filmes hollywoodianos antigos com a história de relacionamentos contemporâneos.

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No cinema, os musicais surgiram em uma fase de grande depressão, e vieram com força nos períodos entre e pós-guerras. A dura realidade da morte, pobreza e fome levaram à criação de histórias baseadas na fantasia, no amor e na felicidade, como uma forma de escapismo. La La Land explora esse universo por meio da música, do cenário incrível, da iluminação e do figurino vibrante. Certos elementos ultrapassam o real, como a dança de Sebastian e Mia no observatório, reforçando a ideia propagada por musicais de que o amor anda lado a lado com a fantasia.

Por outro lado, talvez o que chame mais atenção é o contraste da leveza desses elementos se comparados ao roteiro do filme. À princípio, ele pode ser banal: uma aspirante a atriz e um músico de jazz fracassado que se conhecem ao acaso, e de uma relação de ódio à primeira vista constroem uma visão apaixonada um do outro. Não poderia ser menos cliché, mas logo a história toma um novo rumo: a batalha entre relacionamentos e a ambição por uma carreira. Talvez seja isso que tanto atraiu os olhos de críticos: o apelo para uma realidade ainda pouco explorada em filmes conceituais e que ainda foi utilizado sob um fundo de grande contraste. Afinal, musicais normalmente representavam o poder do amor e sua capacidade em nos levar à felicidade genuína sob todos os aspectos.

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Um filme no mesmo estilo, mas sem um final feliz, já havia sido feito antes. Casablanca apresenta também o conflito que levaria ou não Rick a se separar de Ilsa. Porém, há uma grande diferença entre o casal dos anos quarenta e o de La La Land. Enquanto em Casablanca as personagens são separadas pela Segunda Guerra Mundial, Mia e Sebastian têm que lidar com a dura constatação de que não havia um motivo real para não terem um final feliz juntos. Isso só não aconteceu porque eles acreditavam que seus sonhos e sua relação eram incompatíveis independentemente do quanto se esforçassem para manter ambos. Contudo, não era impossível ficarem juntos, precisavam apenas ajustar seus sonhos à nova realidade. Durante todo o filme, eles insistem que nada mudou em suas ambições, mas na verdade a relação deles afetou muita coisa.

A percepção dessa possibilidade só é possível no fim, quando o personagem de Ryan Gosling pensa: e se? E temos um belo vislumbre do que poderia ter sido essa história se eles não tivessem desistido um do outro para dar tudo em suas carreiras. Nessa vida paralela, porém, Sebastian desiste de seu sonho de ter um clube de jazz, porque seu sonho se torna a felicidade de Mia. Dessa maneira, La La Land mostra que sempre há uma escolha, sempre há mais de uma opção, mas também sempre há um sacrifício. E, sim, uma sempre será mais fácil, ou parecerá a única possível, mas existem pelo menos duas delas.

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Agora vamos, por favor, falar das músicas. Muitas pessoas (erroneamente) odeiam musicais porque têm essa ideia de que os atores nunca falam, só cantam (provavelmente porque o único musical que viram foi Os Miseráveis). Em La La Land estamos longe disso. Embora a música de destaque do filme, City Of Stars, esteja presente no filme em diversos momentos, na verdade só temos seis músicas cantadas durante o filme inteiro. É um número modesto, mas que ao mesmo tempo preenche o musical sem torná-lo cansativo. Ademais, foi muito bem explorado o uso de cascatas na música, técnica que faz o som surgir aos poucos, construindo uma melodia que parece crescer à medida que se desenvolve.

City Of Stars não ganhou um Globo de Ouro à toa. A música representa muito bem o contraste do filme. Dependendo da cena em que é usada, ela pode provocar sentimentos aparentemente paradoxais. Em algumas cenas, se apresenta como uma melodia tranquila, viva e bela. Em outras, principalmente a última delas, sua dissonância a faz soar melancólica, sugerindo sentimentos como saudade e remorso. Assim, a trilha sonora reflete os dois lados do filme: o alegre e o triste.

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A chave para entender La La Land é perceber que, embora pareça, o filme não é uma história de amor, e sim uma história sobre ir atrás dos seus sonhos, não importa o que aconteça. Ele mostra como esse caminho pode colocar pessoas em nossas vidas temporariamente (por apenas algumas estações), porque de algum modo elas vão ser relevantes para alcançarmos nossos objetivos. Sebastian incentiva Mia a fazer sua própria peça, sem a qual ela nunca teria sido chamada para a audição de a levou a virar atriz. E sem Mia, Sebastian nunca teria aceitado o emprego com Keith e depois percebido que o odiava, para então finalmente abrir seu clube de jazz. Algumas pessoas passam pelas nossas vidas temporariamente porque é assim que as coisas devem ser. Não é algo em vão, não é algo que não deu certo. É algo que serviu a um propósito.

Embora a história deles pudesse ter sido diferente com um pouco mais de esforço, ela não obteve um final apenas triste. Sim, é claro que gostaríamos que eles ficassem juntos, porque acompanhamos todo o romance deles, mas às vezes o que as pessoas gostaríamos que fizéssemos não é o que realmente nos faria feliz. Pela troca de olhares entre Mia e Sebastian no fim, vemos que de certa maneira eles vão sempre ser apaixonados um pelo outro, mas esse sentimento agora não é mais suficiente para mantê-los juntos. Mia é casada, tem uma filha e, mesmo que olhe saudosamente para seu amor do passado, é perceptível o quanto está feliz com sua vida. E Seb conquistou seu maior sonho de abrir um clube de jazz, lotado todas as noites por pessoas seduzidas por um estilo que parecia fadado ao esquecimento, entretanto foi revitalizado por ele.

Então, como o jazz, La La Land é um filme que reune o tradicional e o revolucionário, dedicado aos tolos que sonham, àqueles cujo coração dói e à bagunça que nós fizemos.

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