Imagine

Ele ajustou os óculos para ver se enxergava melhor. Não podia ser isso. Algo estava errado. Não era o que ele queria ver. Não podia ser real

Mas era. 

Ele demorou a aceitar que os olhos não o enganavam. Platão não dizia algo sobre como o sensível engana? Mas dessa vez ele não estava enganado, embora quisesse estar. Era aquilo. A desordem, o caos, a desonestidade, a desigualdade, a competição, a discórdia. Todos os “des”. 

Um mundo em negação. 

Mas ele também estava em negação. Fechou os olhos. Dali de cima, a brisa balançava os cabelos rebeldes. Manteve os olhos fechados, e imaginou. Imaginou um mundo onde não tivesse fome, solidão, preconceito. Onde cor de pele era tipo cor de cabelo, onde bonito era relativo e sexualidade não era tabu nem pré-estabelecida. Imaginou um mundo em que as pessoas se amavam. 

Imaginou um mundo onde as pessoas podiam ter opiniões diferentes. Onde gostar do partido x ou y não fazia diferença entre amigos, e discussões sobre política eram interessantes demais para que alguém interrompesse com xingamentos. Onde coxinha era só uma comida muito gostosa. Imaginou um mundo onde as pessoas eram livres. 

Imaginou um mundo onde a conversa era sempre a primeira opção. Onde armas eram palavras e violência era ficar em silêncio. Onde ouvir vinha antes de falar sempre, onde não era errado admitir um erro ou a vitória do próximo. Onde perder era ganhar, ganhar conhecimento, ganhar amizade. Imaginou um mundo onde as pessoas se respeitavam. 

Imaginou um mundo onde se perde a piada, mas não se perde o amigo. 

Imaginou o que veria quando abrisse os olhos. Um mundo quebrado. Tudo que precisava era de um pouco de amor. 

Não abriu os olhos.

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