Inalcançável

Eles crescem rápido. Mais do que isso, querem crescer rápido. Ele bem se lembrava de quando era criança, a vontade de ser adulto que ficava mais forte a cada dia. Achava ser adulto a coisa mais maravilhosa do mundo. Sonhava em não ter que ir dormir cedo, comer legumes e arrumar o quarto. Queria poder ir em lugares de adulto, fazer coisas de adulto.

Ir para o trabalho, ah, esse era um sonho. Tantas possibilidades! Poderia ser jogador de futebol, astronauta, arqueólogo… Seria capaz de viver grandes aventuras, e um dia aquele momento chegaria.

Mas o momento não chegou. Nunca chegava. Quanto tempo falta? Não falta tempo, ele descobriu. Falta ingenuidade. Uma coisa que a gente perde por aí, em algum momento. É como uma joia brilhante que você deixou cair em uma lágrima, como um brilho ofuscado pela sombra de uma nuvem negra pairando. Um dia você acorda, e não está mais lá.

Você descobre que sonhar é mais fácil do que conquistar.

Eles crescem rápido. Mas não deveriam querer. Deveriam ser para sempre assim, sonhadores, amorosos, felizes. Capazes de ver o melhor no mundo. Capazes de não entender como algo pode ser inalcançável. Como não posso ser astronauta se o homem já pisou na Lua?

Tantas possibilidades? Parece não haver nenhuma. Nenhum trabalho que seja prazeroso, que o faça feliz por fazê-lo. Trabalho é sinônimo de obrigação. Ele ansiou tanto por isso? É esse o motivo da vida dele?

Esse momento chegou rápido demais. Não deveria ter chegado nunca. Qualto tempo falta para acabar? Não muito, ele pensou. Logo estarei livre. Logo poderei me dedicar ao que quiser. Poderei jogar futebol na praça, observar as estrelas à noite e viajar para o Egito para estudar civilizações antigas! Quanto tempo falta? Logo, ele pensou.

Logo ele estará morto.

Eles crescem rápido. Mas por que não só na altura? Por que não podem levar o otimismo, a esperança, o respeito aos céus? Quando foi que ele arrancou isso deles e disse que não servia para nada, que eles eram bobos? Em algum momento ele deve ter feito isso. Porque o que mais seria capaz de tirar a esperança de uma criança se não a desmotivação dos pais?

Existiram possibilidades? Talvez, mas ele não soubera arriscar por elas. Ou os outros não o deixaram. Seus pais o desmotivaram? Chamaram-no de tolo, com certeza. De ingênuo, de petulante, de cego. Ele não via o mundo como realmente era ou buscava o melhor no mundo?

Quanto falta para você deixar de ser criança? Nunca, ele deveria ter dito. Deveria ter continuado para sempre assim, capaz de alcançar o inalcançável. Capaz de confiar no outro, e de lhe dar amor. Capaz de segurar firme e não deixar nenhum ladrão lhe roubar o que tinha de mais valioso.

Capaz de lutar por aquilo que era seu.

Eles crescem rápido. O mais velho, correndo ao redor da mesa, logo deixará de acreditar em muitas coisas que os adultos lhe contam, e por isso passará a desacreditar em tudo. O do meio ainda demora um pouco, mas já sonha  com pistas de corrida e carros de Fórmula 1 que pilotará quando crescer. É ela, ainda pequena, longe de crescer, que o preocupa mais. O que será dela? Perderá a doçura, a risada gostosa, o sorriso banguela?

De repente, sem aviso, ela corre em sua direção. Tasca um abraço e um beijo. O que ela quer em troca?, ele imediatamente pensa. Uma ideia surpreendente passa por sua mente. Ela não quer nada, além de dar amor. Ele se agarra ao pequeno corpo dela, como se pudesse se agarrar ao passado. Fica ali, sem saber o que pensar, fazer ou dizer, aprendendo com ela coisas que jamais poderia ensiná-la.

Você sabe que eles estão crescendo quando passa a aprender com eles.

– Um dia, vou ser presidente.

A frase paira no ar. Ele acha improvável, para não dizer impossível. Uma mulher presidente. Sua filha, presidente? O mundo não aceitaria. É um sonho inalcançável. Ele dá um sorriso amarelo e afaga o cabelo da filha.

É, não é possível descrescer, mas ele queria que fosse.

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