Eighteen candles

Família reunida ao redor de uma mesa não é incomum, pelo menos não na minha casa. O incomum mesmo é que isso ocorra em plena terça-feira, com um bolo no centro. Mais incomum ainda é eu estar à frente dele, coisa que só ocorreu outras 17 vezes na minha vida. É um evento anual, apenas.Observo as dezoito velas brilharem no escuro. É engraçado como que, quando se olha demais para algo fixamente, a imagem toda parece uma pintura impressionista. Talvez seja, porque ela certamente é capaz de imprimir sentimentos em mim. Semicerro os olhos para ver ainda mais fosfenos. Fosfenos são as cores e luzes que você vê quando sua visão está borrada. É como se fosse um mundo de lantejoulas brilhantes.

Quando faço isso, as chamas das velas passam a me lembrar estrelas. No escuro da sala, elas até poderiam ser. Queimando com fogo, distantes, capazes de realizar desejos. Velas de aniversário são estrelas especiais. Consigo imaginar os milhões de astros no universo agora. Se eu sair para o lado de fora, conseguirei ver sua luz. Luz que viajou milhões e milhões de quilômetros para chegar até mim hoje, nesse dia. Luz que, quando chega até mim, já é luz de uma estrela morta há milhares de anos. Luz de estrelas fantasma.

Todas essas luzes chegam até mim como um vestígio do passado. Ah, o passado, a lembrança do presente que já passou, diriam os filósofos da Escolástica. E quantas lembranças me traz o passado. Algumas ruins, a maioria boa. Uma vida inteira que, apesar de longa, passou rápido para que eu chegasse até aqui. Uma vida que apenas acelera, tentando alcançar a velocidade da luz. Uma vida de eternos retornos.

As velas permanecem queimando à minha frente, estáticas. Elas irão morrer logo, independentemente de eu soprá-las ou não. Inflo o peito de orgulho por todos os anos que me passaram tão bem e de tudo que consegui realizar e encho-o de ar. Sei bem o que vem depois. Uma a uma, cada chama se extingue, como se nunca tivesse existido, apenas uma leve fumaça sobe aos céus. Almas de estrelas.

As estrelas já estão mortas, assim como a chama das velas. Mas a luz de ambas permanece viajando pelo espaço, perpetuando pegadas do futuro.

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