Estou morto por você

Embora o mar estivesse calmo naquele dia, não era assim que ele se sentia. Fazia exatamente seis meses, mas era como se aquele dia não houvesse passado. Ele ainda se sentia amargo e triste. Mais do que isso, sentia saudades. Tentou não pensar nisso enquanto deixava o vento bagunçar o cabelo e observava o horizonte. O garoto sabia que ela estava desconfortável ao seu lado, mudando de posição de cinco em cinco segundos. Ela estava de shorts, por isso a superfície rochosa da pedra onde estavam sentados devia estar arranhando-a. Ela tinha a pele muito sensível.

Na verdade, ela era perfeita. Tinha longos cabelos cor de mel e olhos verdes contornados de preto, o que só os valorizava mais. Ela também era alta e magra como uma modelo, e ele não podia fazer reclamações, porque, além de gostosa, ela era educada e carismática. Era o que os amigos chamariam de “pacote completo”. Estavam juntos há duas semanas, e era a primeira vez que ele realmente tentava para valer namorar alguém desde o último semestre. Sabia que precisava seguir em frente e realmente não havia motivo aparente para não ficar com ela. Mesmo assim, ele ainda não conseguia olhar nos olhos dela sem pensar que jamais conseguiria gostar dela como gostara de outras garotas antes. Desde o ano passado, tudo havia mudado.

Dissera à garota que queria ver o pôr-do-sol na praia com ela, mas essa era só mais uma tentativa dele de escapar das sessões de amassos que tinham. Embora ela beijasse muito bem, ele nunca conseguia levar isso muito a sério. Uma das vezes, se afastou dela, o que gerou toda uma discussão sobre o namorado estar a rejeitando. Desde então, ele criava esse tipo de programa para que não tivesse que beijá-la por muito tempo. Realmente, a relação deles não ia bem. Mesmo assim, o garoto estava tentando. Não por si mesmo, ou então já teria terminado com ela. Mas por seus pais, que estavam verdadeiramente preocupados com a possibilidade do filho estar passando por uma crise existencial de solidão.

A inquietação dela já o estava aborrecendo, por isso virou-se para encará-la, na esperança de que isso a fizesse parar. Ela reparou e esboçou um sorriso, como se o namorado a estivesse olhando por ser bonita, e não por estar irritado com ela. Ele observou o sorriso branco, tão perfeito quanto o resto do rosto dela. No entanto, isso não o impediu de desejar que seus olhos fossem mais para um tom de azul e que seus cabelos fossem mais claros. Que ela não usasse tanta maquiagem, e que seu sorriso fosse mais irônico do que simpático. Quanto mais perfeita ela se tornava para a sociedade, menos ela se tornava para ele. O garoto continuava a procurar nela rastros do passado que jamais encontrava.

Deixou escapar um suspiro e, em um deslize pela pedra, se aproximou da garota. Olhou em seus olhos, semicerrados por causa do sol do fim da tarde, e tomou coragem para enfim dizer-lhe alguma coisa verdadeira.

– Você já se apaixonou de verdade por alguém?

Esperara que ela mostrasse surpresa diante da pergunta, mas tudo que ela fez foi parar por um momento, como se pensasse minuciosamente na resposta. Ele apenas torcia para que não dissesse estar apaixonada por ele.

– Não, acho que não.

Queria suspirar de alívio, mas não se sentia aliviado. Mais do que nunca, sentia-se frustrado e sozinho.

– Bom, então não se apaixone. É um pequeno conselho que te dou. Apaixonar-se é uma merda.

Ele não queria ter soado tão ranzinza, como se fosse um homem de cinquenta anos encalhado. Tentou disfarçar, tomando um gole do seu refrigerante, mas ela já havia arregalado os olhos e, mesmo conhecendo-a há apenas 15 dias, ele sabia o que aquilo significava.

– Mano…

Se tinha uma coisa que odiava era essa gíria, mas ela parecia não absorver esse detalhe simples. Ele sabia que isso era um pouco paranoico, sentir-se tentado a odiar alguém por uma gíria regional, algo que ela não podia controlar, mas não conseguia evitar. Esforçava-se para ignorar os defeitos praticamente inexistentes na garota, mas eles pareciam gritantes. Sem querer perder a cabeça com a namorada, ele a interrompeu antes que pudesse terminar.

– Eu falo sério. Apaixonar-se é como morrer.

Tomou outro gole do refrigerante, sem tirar os olhos da garota. Ela parecia ainda mais chocada, como se finalmente percebesse que estava saindo com um louco. Ele esperou que ela desse desculpas para ir embora, e quase desejou que o fizesse. Contudo, a garota se recompôs, como se aquela comparação fosse alguma metáfora interessantíssima na qual ela acreditava completamente. Infelizmente, ela era muito boa para simplesmente se mandar e depois enviar uma mensagem de texto terminando o namoro, como qualquer outra garota normal teria feito.

Afinal, ele não parecia realmente são.

– Não diga isso. Por que você diria isso?

– Você disse que nunca se apaixonou, então não sabe. Mas é verdade. O amor é como a morte.

– Mas por quê?

Ela tinha os olhos cheios de tristeza, como se sentisse sua dor, mas ele sabia que ela jamais havia sentido a dor que ele sentia naquele momento, a dor que sentira durante todos os dias daqueles seis meses.

– Porque uma vez que você é fisgado, não há mais volta.

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