A Rainha de Gelo

“Winter is coming.”

(Game Of Thrones)

 

Enquanto Anna Haig fazia parte do comitê organizador do baile, sua irmã Elsa, que era um ano mais velha, iria ser coroada a Rainha de Gelo do evento. Como todo ano, o grande Baile de Inverno da Arendelle High School, no Colorado, estava sendo meticulosamente preparado. Depois de passar dias dentro de casa por causa de uma nevasca, Anna não via a hora de finalmente sair de casa e voltar a ver as pessoas.

Elsa, por outro lado, parecia muito bem presa dentro de casa. Elas costumavam ser melhores amigas quando crianças, mas um dia, de repente, elas pararam de brincar juntas. Agora Elsa passava todo o tempo livre no ringue de patinação, treinando. Todas as tentativas de Anna ao chamar a irmã para sair desde então haviam resultado em respostas negativas, ou mesmo em batidas na porta do quarto da outra que jamais foram respondidas. Nesses últimos dias, Elsa ficara trancada no quarto, fazendo sabe se lá o quê, ignorando totalmente a irmã mais nova.

Era verdade que ambas eram bem diferentes, não só física como psicologicamente. Elsa era loira, Anna era morena. Elsa era reservada, Anna era eufórica. Elsa era elegante, Anna era desengonçada. Elsa havia nascido para se tornar a rainha do baile, Anna estava ali apenas para organizá-lo. Mesmo assim, elas eram irmãs, por isso ela nunca havia compreendido por que Elsa mantia tal distância. Mesmo durante a morte do pais, que ocorrera em um terrível acidente de carro, Elsa não havia baixado guarda. Até as tentativas da tia, agora guardiã das duas, haviam sido em vão.

E era apenas com ela. Apesar de realmente ser uma pessoa quieta por natureza, Elsa tinha muitos amigos e jamais afastara nenhum deles. Não era à toa que a estavam elegendo como Rainha do Gelo. Ela era popular, principalmente por ser uma grande patinadora. Elsa havia nascido para morar em um lugar frio, cheio de gelo e neve. Ela era boa em todos os esportes de inverno, desde hockey até patinação artística. Isso garantia a ela uma inclusão social enorme, visto que moravam em uma das cidades mais frias dos Estados Unidos. Todos a amavam, e ela amava a todos.

O problema parecia ser exclusivamente com Anna.

 

 

A manhã do grande baile parecia a mais quente daquele inverno. Anna abriu a janela, feliz, e respirou o ar puro da manhã. Rapidamente vestiu o jeans que havia jogado no chão na noite anterior, enquanto procurava um moletom. Em menos de um minuto já estava do lado de fora da grande mansão dos Haig. A família oriunda da Noruega havia se mudado para a América no século XX, construindo a mansão que era herdada há décadas. Sua aparência semelhante a um castelo era tão famosa que a moradia de Anna era encontrada em guias de viagem e fotografada por turistas. Parecia perfeito que a futura Rainha de Gelo morasse ali.

Anna correu pelas ruas, feliz que um dia de sol pudesse ter nascido de uma grande nevasca. Ainda estava frio, e ela sabia que aquele pequeno vislumbre do sol era temporário. Muito em breve voltaria a nevar, por isso ela precisava aproveitar.

Um dos lugares que mais gostava na cidade era o lago, que àquela altura já devia estar descongelando um pouquinho. Caminhou até o pequeno píer, cantarolando baixinho. Parou na ponta dele, observando o vasto lago se estender até as montanhas. Estava distraída, e por um breve momento fechou os olhos e inspirou o ar frio com força.

Foi quando um imenso dobberman branco se jogou sobre ela, fazendo-a cair.

Por sorte, ela caiu em uma pequena canoa que estava estacionada ali. O dobberman ainda tentou pular sobre ela novamente, mas um garoto apareceu por trás do cachorro, segurando-o pela coleira. Anna estava preparada para aconselhá-lo a tomar conta do seu animal melhor, mas ao vê-lo, as palavras extinguiram-se. O garoto era lindo, parecia um príncipe, com belos cabelos e olhos castanhos.

“Uou, uou, calma aí, Sitron! Não queremos matar alguém na nossa primeira semana aqui!”, o garoto repreendeu o cachorro. “Me desculpe”, pediu ele, virando-se para ajudar Anna a se levantar. “Ele é incontrolável.”

“Sem problema”, ela conseguiu balbuciar, de algum jeito.

O garoto sorriu e puxou a mão de Anna para trazê-la de volta ao píer. Porém, ele usou muita força, fazendo com quem ela trombasse nele.

“Me desculpe”, disseram ambos em uníssono. O garoto riu.

“Sou Hans”, se apresentou. “Hans Christian Andersen VI.”

Anna ficou boquiaberta. Hans Christian Andersen VI era da família Andersen, importante e famosa em todo o país. O sr. e a Sra. Andersen tinham treze filhos, todos famosos por grandes feitos. O mais velho ganhara a Medalha Fields, o quarto um Oscar, o sétimo era um pianista mundialmente famoso e o décimo segundo tornara-se o maior atleta dos Estados Unidos. Havia ainda na família um pop star, um cirurgião renomado e um escritor de best-sellers. Nunca uma família das Ilhas do Sul teve seu nome tão divulgado.

Anna percebeu que permanecia paralisada, ainda estupefata.

“Sou Anna Haig.”

Para sua surpresa, Hans também ficou surpreso ao saber quem ela era.

“Princesa Anna”, disse ele, agachando-se em uma pequena reverência. “Perdoe a minha deselegância.”

Anna riu.

“O quê?”

“Uma vez que Elsa, sua irmã, é a Rainha, você seria a Princesa, Anna”, explicou, se levantando. “É da realeza.”

“Ah, claro. Falou o caçula da família mais famosa do planeta.”

“Você não faz ideia do pesadelo que é ser um Andersen.”

“Realmente. Deve ser terrível”, Anna riu, silenciosa. Ela adoraria ser uma Andersen. Sua família era rica, mas ela queria mesmo era ser famosa.

“É, sim. Tenho 12 irmãos mais velhos que são melhores do que eu em absolutamente tudo. Ser eu é uma grande pressão, principalmente considerando que todos os cinco Hans Christian Andersens antes de mim foram grandes personalidades mundiais. Eu não tenho nenhum talento especial, então sou ignorado. Daqui a pouco vão ser apenas 12 herdeiros Andersen”, desabafou Hans, de uma vez só.

Anna nunca tinha pensado desse modo. Sabia o que era ser ignorada por um irmão, por isso imediatamente se solidarizou com ele. Já era ruim o suficiente ser ignorada por uma irmã, imagine por doze! Hans parecia ser a primeira pessoa a finalmente entender a solidão de Anna.

“Elsa também me ignora”, revelou ela. “Ela não é muito de pessoas.”

Hans exibiu uma expressão de surpresa.

“Sério? Achei que ela fosse super popular, afinal foi eleita Rainha de Gelo.”

Anna não queria fazer parecer que Elsa ignorava somente a ela, então balançou a cabeça.

“Ela é muito fechada. Provavelmente foi eleita por ser muito talentosa.”

Ele arqueou as sombrancelhas, exibindo uma pequena preocupação.

“E você?”

“Ah, não. Eu sou bem mais extrovertida.”

Isso pelo menos era verdade. Anna sempre fora mais amigável que Elsa.

Para a felicidade de Anna, Hans pareceu aliviado.

“Que bom. Estou começando a gostar de você, por isso não quero que você me chute logo de cara.”

Anna corou. Ela queria muito que Hans gostasse dela. As pessoas sempre pareciam preferir Elsa, porque ela era mais bonita, inteligente e elegante. Outros se aproximavam de Anna apenas para chegar perto de sua irmã. Ter alguém que gostasse dela independentemente de ser ou não irmã de Elsa Haig parecia maravilhoso.

Ela queria que Hans fosse só dela.

 

 

Todos os alunos da Arendelle High School estavam presentes no baile daquele ano. Por causa disso, Anna estava mais nervosa do que o normal. Claro que isso não tinha nada a ver com a presença de Hans Christian Andersen VI ou o fato de que ela veria a irmã pela primeira vez nos últimos dias.

Anna conferiu pela milésima vez a lista de músicas com o DJ, reviu com o apresentador a ordem de premiação e checou se estava tudo bem com as coroas. Ela permanecia alisando seu vestido verde e cutucando os grampos do seu coque.

“Anna!”, ralhou a professora responsável pelo baile, sra. Queen. “Vá se divertir!”

Mas ela não conseguia. O ginásio estava tão cheio que não encontrara Elsa ou Hans, e não havia muito mais gente para conversar. Anna não tinha tantos amigos assim. Na ponta dos pés, tentou em vão procurar a cabeça branca da irmã na multidão.

A festa já estava na metade quando o aluno responsável por apresentar a coroação subiu ao palco. Ele usava um terno todo branco com um xale azul e, sinceramente, Anna poderia facilmente confundi-lo com um padre.

“Boa noite, caros súditos de Arendelle”, sua voz entoou pelo ginásio quando o DJ diminuiu o som. “Vamos dar inícios aos preparativos reais da noite.”

O garoto puxou um envelope de dentro do paletó.

“E o Rei de Gelo deste ano é…”, o menino abaixou os olhos para ler o nome, embora não precisasse de verdade e estivesse apenas fazendo suspense. “Duke Weaseltown!”

Uma salva de palmas eclodiu, e Anna a acompanhou. Duke, o presidente do clube de debates mais gato dos Estados Unidos, subiu os degraus do palco. O cabelo loiro estava penteado com gel para trás e os óculos haviam sido substituídos por lentes de contato. Sorridente, andou até o apresentador, colocou a coroa em si mesmo e se inclinou sobre o microfone.

“Na verdade, a pronúncia correta é Weselton.”

O garoto que apresentava fingiu não ouvir, empurrando-o para o lado.

“Agora, o momento mais esperado da noite. Por favor recebam Sua Alteza Real, Rainha de Gelo de Arendelle, Elsa Haig!”

Os olhos de Anna imediatamente se focaram na base da escada, onde sua irmã até então desaparecida subia os degraus. Seus cabelos também estavam presos, porém em um penteado muito mais elaborado, e o vestido era de uma verdadeira rainha, de mangas compridas e com bordados impressionantes. Anna não fazia ideia de onde Elsa arrumara aquilo, mas tinha uma sensação forte de que era de sua mãe.

A irmã parecia estranhamente nervosa ao cruzar o palco e permitir que o garoto colocasse a coroa sobre seus cabelos perolados. Porém, logo depois que se juntou a Duke, sua expressão se suavizou e logo passou a irritação, quando Duke se inclinou para sussurrar algo em seu ouvido.

Anna percebeu que estava tensa, então tentou relaxar. Aproveitando a distração da irmã, esperou-a no pé da escada, onde não teria como fugir dela na frente de todas aquelas pessoas.

Entretanto, Elsa não parecia querer evitar Anna e chegou a sorrir ao ver a irmã mais nova parada ali. Isso desconcertou Anna um pouco, mas a garota logo retribuiu o sorriso.

“Oi”, disse Elsa, apenas.

Você está falando comigo?, era o que Anna queria perguntar, mas a resposta era bem óbvia. Não havia mais ninguém ali, e Duke Weselton ainda estava discursando para atrair os holofotes por mais um tempinho.

“Oi”, Anna respondeu, sem saber o que mais poderia dizer. Na verdade, ela não sabia nem para onde olhar. Não se lembrava da última vez em que havia conversado com Elsa.

“Você está uma graça” continuou a mais velha.

“Eu?”, Anna não poderia ter ficado mais surpresa. “Obrigada! Você está cheia de graça também! Quero dizer, não cheia, cheia, graciosa, mais graciosa ainda!”

Elsa pareceu não reparar no nervosismo da irmã.

“Obrigada”, seus olhos se semicerraram em um sorriso discreto.

As duas voltaram a olhar o salão abarrotado.

“Então”, Elsa continuou. “É assim que é uma festa!”

Anna acompanhou o olhar da irmã. Duke Weselton já terminara o discurso e estava agora discutindo a pronúncia correta do seu nome com o apresentador. O DJ aumentara a música e a maioria das pessoas dançava no centro do ginásio, animadas. Eram um mar de cores, de elegância, transpiravam alegria e juventude. Anna nunca vira nada igual.

Elas não costumavam ir a festas. Anna, por não ser muito popular; Elsa, por estar sempre no ringue, treinando. Era algo completamente novo para elas.

“Mais divertido do que pensei”, Anna acrescentou. Era verdade. Só de ter Elsa ali, ao seu lado, conversando com ela, se sentia mais feliz do que nunca. Era provavelmente a noite mais divertida de sua vida.

Porém, Elsa estava destraída e pareceu não ouvir o comentário.

“Mas que cheiro maravilhoso é esse?”, ela então perguntou.

As irmãs fecharam os olhos e inspiraram o aroma em um movimento sincronizado.

“Ummmmm!”, entoaram em uníssono. “Chocolate!”

Os olhos se encontraram e risadas escaparam.

Anna finalmente tomou coragem para dizer algo a Elsa, estava abrindo a boca quando Duke Weselton colocou-se entre elas. Aparentemente tinha acabado sua conversa com o garoto que apresentara a coroação.

“Majestade”, ele se dirigiu à Elsa, não apenas interrompendo Anna como ignorando-a. “Como seu rei, acho justo que me conceda sua primeira dança como rainha.”

Duke então deu uma volta elaborada como um passo de dança ridículo e fez uma reverência que fez sua coroa cair e estragou um pouco a solidez de seu gel, embora Anna achasse que ele não tinha percebido a última parte.

Ela e Elsa deixaram risadinhas escaparem.

“Obrigada”, Elsa disse, embora não tenha soado muito agradecida. “Só que eu não danço.”

“Oh…”, Duke fez sua melhor cara de cachorrinho abandonado ao se levantar, pegar a coroa caída e colocá-la novamente sobre a cabeça.

“Mas minha irmã dança!”, completou, para o desespero de Anna.

“Bom”, Duke olhou para Anna como se finalmente percebesse sua presença. “Sorte a sua!”

O Rei do Gelo entrelaçou o braço no seu e a puxou para a pista de dança. Elsa murmurou uma desculpa com os lábios quando Anna lançou um olhar de desespero à irmã. A única coisa que a impediu de cortar o braço de Weselton que a prendia foi seu bom humor daquela noite, e nem ele poderia estragá-lo.

Duke não dançava mal, isso era eufemismo. Ele dançava como uma galinha. E como se não bastasse, revelou-se ainda pior companhia por interrogar Anna a música inteira, como em um investigatório daqueles que ela via em NCIS.

“Que bom que sua irmã veio hoje. Por que ela nunca vem a festas? Por que ela não sai com ninguém? Ela sai de casa? Você sabe?”

“Não”, Anna arqueou as sobrancelhas.

Duke a jogou para trás e Anna quase sentiu sua coluna se partir.

“Não é à toa que me chamam de pé de valsa!”, exclamou ele.

Anna nem teve forças para contestar. Depois do que pareceu um século, duzentos pisões de pé e cinquenta perguntas, a música finalmente acabou e ela pode abandonar Duke Weselton.

“Me chame quando estiver pronta para mais uma, princesa!”, deu uma piscadela, enquanto Anna pensava que só voltaria a dançar com aquele baixinho irritante no dia de são nunca!

Voltou para onde a irmã ficara, no canto do ginásio, arrumando os fios que haviam se soltado do coque.

“Ele estava animado”, Elsa comentou, disfarçando uma risadinha.

“Especialmente para um homem que levou toco de sua própria rainha sarcástica”, debochou, tentando arrumar o salto nos pés. “Não sabe dançar! Você é patinadora!”

Elsa ignorou a provocação.

“Você está bem?”

Palavras não eram suficientes para descrever o quão bem Anna estava.

“Nunca estive melhor! Ah, isso é tão legal! Eu queria que fosse assim todo dia!”, disse, sincera.

“Seria bom”, Elsa sorriu graciosamente.

Por um segundo, Anna visualizou tudo. As duas juntas, no quarto, sobre a cama, conversando sobre garotos, quem sabe Hans, sobre maquiagem, roupas, filmes. Sentadas juntas no sofá assistindo Netflix, indo juntas para a escola, brincando na neve, fazendo bonecos com ela…

Mas então, como se finalmente se lembrasse de que não era amiga de Anna, Elsa desmanchou o sorriso e fechoua cara.

“Mas não dá”, completou, e tudo dentro de Anna murchou.

“Ué, por que não?”, ela tentou se aproximar, mas Elsa se virou e afastou a irmã.

“Eu disse que não dá!”, ela elevou o tom de voz.

Como se tivesse levado um balde de água fria, Anna congelou e então deu um passo para trás, afastando-se da irmã. Ela havia estragado tudo. Os cantos de sua boca se curvaram para baixo e, sem saber o que fazer, ela se afastou ainda mais.

“Com licença um minuto”, conseguiu dizer, baixinho, e então adentrou a multidão.

Cabisbaixa e distraída, mal viu quando uma garota passou correndo e quase a derrubou. O que lhe salvou foi uma mão que agarrou a sua com firmeza pouco antes que atingisse o chão. Transtornada, Anna procurou o rosto daquele que a salvara e deu de cara com Hans Christian Andersen  VI.

“Ha!”, o garoto murmurou, triunfante. “Dessa vez não caiu!”

“Hans?”

O garoto puxou Anna para que ela ficasse de pé novamente. Usava um smoking completo e estava ainda mais bonito do que naquela manhã. Ela mal se colocara de pé e ele já a guiava pela pista de dança, em movimentos que colocavam Duke Weselton no chinelo.

Eles conversaram, dançaram e riram a noite toda. Ela lhe disse coisas absurdas e ele respondeu de forma mais absurda ainda. Quando ela era estranha, ele era ainda mais estranho. Era difícil para Anna se sentir bem com qualquer um. Ela sempre sentira que não se encaixava em lugar algum e que não havia ninguém como ela. Porém Hans parecia perfeito para ela, e Anna sentia que podia falar qualquer coisa com ele.

“Ta, eu posso dizer uma coisa louca?”, perguntou por fim.

“Eu adoro loucura!”

“Muitas portas se fecharam pra mim sem razão, mas de repente eu encontrei você…”

“Sim! Eu passei minha vida inteira procurando emoção, mas talvez ela estivesse o tempo todo em conversas como essa, ou em se lambuzar de glacê…”

Anna não podia concordar mais.

“Exatamente! Com você, eu finalmente tenho emoção. Não há nada como sentir esse amor que estou sentindo agora… Pela primeira vez, vejo uma porta abrir na minha vida.”

“Com você, Anna”, Hans segurou suas mãos. “Eu também vejo uma porta se abrir. O amor é uma porta aberta.”

Ela sorriu, radiante.

“E sabe o que é meio doido?”, continuou ele.

“O quê?”

“Você finaliza meus…”

“Sanduíches!”, soltou, tapando a boca por dizer algo tão ridículo, mas Hans arregalou os olhos.

“Era o que eu ia dizer!”

Os olhos de Anna faiscaram de felicidade. Não era possível que Hans Christian Andersen VI fosse real.

“Nunca conheci alguém tão parecido com um jeito de pensar tão parecido com o meu! Parece sincronizado…”

Hans levantou o indicador.

“Mas pode ser explicado… Você e eu”, ele mexeu o indicador para indicar a Anna e a ele mesmo. “Nós somos um par.”

Diante disso, ela se beliscou para saber se não estava mesmo sonhando.

“Anna, posso dizer uma coisa louca?”

“Eu adoro loucura!”

“Quer namorar comigo?”

“Sim!”

 

 

“Com licença?”, Anna empurrou uma garota que dançava break na pista. “Elsa!”, gritou, ao ver a irmã.

Arrastou Hans consigo até a mais velha das Haig, que observou a cena com estranhamento. Hans a abraçou e Elsa apenas arqueou mais as sobrancelhas.

“Viemos aqui…”, Anna começou.

“A gente queria”, Hans disse ao mesmo tempo.

“Pode falar!”, disseram ambos em uníssono.

“Bom…”

“A gente queria…”

“Te contar que estamos…”

“Estamos namorando!”, terminaram juntos.

A surpresa de Elsa não podia ser maior.

“Namorando? Desde quando? Quem é você?”, ela olhou para Hans como se ele fosse um verme.

Hans apressou-se em se apresentar, mas Anna, já furiosa com o tom de superioridade da irmã, o interrompeu.

“Esse é Hans Christian Andersen VI, da família Andersen das Ilhas do Sul.”

“Um dos treze filhos? E quando vocês se conheceram?”

“Hoje de manhã, Sua Alteza”, Hans disse, para quebrar o gelo.

Não funcionou.

“Hoje de manhã?”, Elsa estava com cara de poucos amigos. “Anna, preciso falar com você, mas a sós.”

“Não!”, prostestou Anna, emburrada. O que Elsa estava fazendo? Anna achou que ela ficaria feliz por ela, mas a irmã estava determinada a estragar tudo. Ela abraçou o braço de Hans, em um gesto protetor. “O que tiver a dizer, pode dizer a nós dois!”

Sua voz foi firme, o que a deixou satisfeita consigo mesma. Elsa, no entanto, não se intimidou.

“Tudo bem”, deu de ombros, como se o problema fosse de Anna. E então disse de uma vez só, em um fôlego, mas determinada: “Você não pode namorar alguém que acabou de conhecer!”

Anna ficou chocada. Quem era Elsa para dar conselhos sobre namoro? Ela nunca havia namorado! Além disso, estava certa de que Hans era seu amor verdadeiro.

“Posso sim!”, contestou, fechando a cara. “Se for amor verdadeiro!”

Elsa revirou os olhos.

“Anna, você nunca namorou, aposto que nem ao menos se beijaram. Vocês mal se conhecem! O que você sabe sobre amor verdadeiro?”

“Bem mais do que você!”, gritou, num misto de tristeza e fúria. “Tudo que sabe é como abandonar as pessoas.”

Os olhos de Elsa se arregalaram e não foi difícil para Anna perceber como as palavras a magoaram. Quase se sentiu mal, mas depois se lembrou de tudo o que Elsa fizera com ela e não conseguiu sentir pena da irmã.

Elsa se recompôs.

“Você veio me contar, e eu disse que acho tolice”, concluiu, firme. “Agora, se me der licença…”

“Majestade”, Hans a interrompeu. Anna só queria que ele parasse com o apelido ridículo. “Se eu puder…”

“Não, não pode”, Elsa não hesitou, se desviando do braço esticado do caçula Andersen de forma calma, como se nada tivesse acontecido. “Acho, inclusive, que você deve ir embora. É o que vou fazer.”

“Não, o quê?!”, Anna agora estava desesperada. “Elsa, não!”

A mais nova tentou alcançá-la, puxando-a pelo braço, mas acabou tirando uma das luvas que Elsa usava.

“Devolva minha luva”, vociferou ela.

Anna se agarrou ao objeto como se de repente percebesse o valor que ele tinha para a irmã mais velha.

“Elsa, por favor! Por favor, eu não consigo mais viver desse jeito!”, choramingou.

Estavam afastadas do algomerado de pessoas do baile, mas algumas pessoas já se viravam para ver o que estava acontecendo. Elsa olhou para os lados, nervosa por chamar atenção. Anna não entendia como alguém tão popular poderia odiar tanto ser o centro das atenções.

Então Elsa a olhou com o olhar mais cheio de mágoa que ela jamais vira.

“Você é livre para fazer o que quiser, Anna”, sua voz soou amarga e sem um pingo de compaixão.

Apesar da faca que atingiu seu coração, Anna não ia deixar que Elsa a afastasse novamente.

“O que foi que eu fiz para você, hein?”, gritou, chamando ainda mais atenção para a briga. Hans se mantia à distância, sem saber se interferia ou não.

“Chega, Anna!”, Elsa usava sua melhor voz autoritária enquanto seguia para a saída, mas a caçula a seguiu e não se deixou intimidar. Pela primeira vez na vida, estava tomada pela coragem, fruto de todas as mágoas que havia acumulado em seu coração até então.

“Não! Por quê, por quê?”, ela tentou segurar o choro. “Por que se afastou de mim? Por que se isolou de todo mundo? Do que você tem tanto medo?”

“Eu disse JÁ CHEGA!”, Elsa esbravejou, se virando, e com o movimento dela um meio círculo de estalagmites de gelo cresceu do chão.

Anna pulou para trás, por pouco não sendo atingida por uma das perigosas pontas afiadas. Todos no ginásio congelaram e seguraram a respiração. Dezenas de olhos arregalados pelo medo encaravam Elsa. O rosto da Rainha de Gelo se contorceu com mais temor ainda, enquanto procurava na multidão alguém que não parecesse temê-la. Mas a sra. Queen estava petrificada de medo, o apresentador estava praticamente fazendo xixi nas calças, Hans arregalou os olhos e Anna, até mesmo Anna estava se afastando da irmã.

“Ela é um bruxa”, Duke Weselton foi o primeiro a falar. A música cessara e tudo que se ouvia era sua voz. “Sempre soube que havia algo muito errado com ela.”

Sua voz era puro desprezo. Anna o ignorou.

“Elsa…”

Queria dizer-lhe que ia ficar tudo bem, que encontrariam um jeito, que entendia agora o que se passava com ela. Mas as palavras não saíram.

Elsa deu um passo para trás, encontrando a porta de saída. Ela a empurrou com as costas e correu, correu para longe antes mesmo que Anna pensassem em segui-la.

“Alguém pare Elsa Haig!”, gritou Duke Weselton, apontado para a direção a qual ela fugira. “Ela é um monstro, uma aberração!”

E, como se seguissem seu rei, os alunos passaram a correr na direção.

“Ela é perigosa!”, gritou uma garota.

“Peguem-na!”, acrescentou uma outra.

“Não, Elsa!”, Anna tentou para-los, mas nem ela nem a sra. Queen foram capazes de conter o mar de alunos.

Anna correu para fora. Ela era rápida e acabou ultrapassando o mar de alunos para ver a irmã cruzando o grande lago… Andando sobre a água. Cada passo seu congelava a superfície, permitindo que ela andasse sobre ela. O lago quase descongelado já se congelava, e o dia que amanhecera ameno tornava-se frio, como se a temperatura tivesse caído em vinte graus.

“Elsa!”, Anna gritou, mais uma vez, em vão.

Os alunos se aglomeravam nas margens do rio, incertos sobre seguir a Rainha do Gelo ou não. Eles iriam escorregar, pensou Anna, isso se o gelo não se quebrasse e eles caíssem na água congelada. O grupo pareceu chegar à mesma conclusão, pois ninguém tentou ir além.

As pessoas estavam confusas, conchichando, olhando para Anna de esguelha. Ela não sabia o que fazer, só queria ir para casa. Mas não podia, precisava achar Elsa e pedir desculpas.

“Pessoal!”, Hans agrupou as pessoas ao seu redor. “Por favor, me escutem. Elsa Haig não é perigosa, ela estava apenas assustada e tenho certeza de que podemos facilmente resolver o assunto se a trazermos de volta.”

“Não é perigosa? Ela quase nos matou!”, Duke Weselton vociferou e muitos ao seu redor murmuraram em concordância.

“A culpa foi minha”, Anna elevou a voz, grata por Hans ter dito aquilo. Ele a ajudou a subir na elevação em que estava para se dirigir às pessoas. “Eu a provoquei, sei que ela não teve a intenção. Por isso, irei atrás dela e quando voltarmos verão que não há nada a temer.”

“E como vamos saber que você não é um monstro também?”, Duke questionou, e diversas pessoas ao redor balançaram suas cabeças, concordando.

Anna franziu o cenho, mas foi Hans quem a defendeu.

“Ela não é!”, disse prontamente, embora não soubesse realmente. Anna se sentiu enormemente grata pelo ato de confiança. “Ela é completamente ordinária.”

Ordinária? Anna murchou. Isso não soava bom. Sua expressão deve ter deixado isso claro, pois Hans quase que imediatamente imendou:

“No melhor sentido da palavra, é claro.”

As palavras de Hans confortaram grande parte da multidão. Duke Weselton não pareceu satisfeito, porém percebeu que havia perdido a discussão.

Anna se virou para Hans.

“Você precisa ficar aqui e cuidar de tudo. Acalmar as pessoas. Está começando a nevar e as ruas vão ficar bloqueadas, muita gente vai sentir frio e fome e não terá como voltar para casa. Eu sou a organizadora do baile, mas preciso ir atrás da minha irmã. Sei que é pedir muito, mas pode cuidar disso no meu lugar?”

“Anna, não posso deixar que saia nessa nevasca sozinha. Elsa é perigosa.”

Ela queria beijá-lo, mas não havia tempo para isso.

“Ela é minha irmã, jamais me machucaria.”

“Tem certeza?”

Anna balançou a cabeça.

“Você vai ter que confiar em mim, eu preciso fazer isso sozinha”, insistiu. “Além disso, não confiaria em nenhum outra pessoa para ficar aqui, nem mesmo na sra. Queen.”

“Se você insiste, Anna, aqui ficarei”, Hans exibiu uma expressão determinada.

“Ótimo, me deseje sorte”, ela beijou-lhe a bochecha.

Hans tirou o paletó do smoking e colocou-o sobre os ombros da garota.

“Boa sorte”, desejou e a beijou de leve nos lábios.

Incapaz de conter um sorriso, Anna deu meia volta e partiu, em busca da Rainha de Gelo, literalmente.

 

 

A única coisa em que Anna conseguia pensar era em como havia sido uma ideia terrível ir a pé. Não que tivesse escolha. A nevasca já havia resultado em uma camada de uns 50cm de profundidade. Agora ela já se amenizava, mas estava difícil para Anna andar. Além disso, o paletó de Hans não era nem de longe o suficiente para aquecê-la. Anna não parava de tremer, com, certeza estaria com um resfriado quando chegasse em casa.

Se chegasse em casa, foi o que pensou ao ver a grande extensão de neve à sua frente. Estava andando já há uma hora e adentrara o parque, cheio de pinheiros cobertos de branco. Não havia nenhum lugar próximo onde pudesse parar.

“Tinha que ser neve?”, reclamou consigo mesma. “Não podia ser magia tropical, que cobrisse tudo com areia fofa e quentinha?”

Foi quando viu uma pequena casinha iluminada por tons laranjas conhecidos de…

“Fogo!”, exclamou, deliciada, praticamente correndo até lá.

Todavia, no caminho a calda do seu vestido se prendeu. Ela tentou desgrudar puxando, mas aplicou tanta força que saiu rolando e caiu em um riacho. Era raso, não tinha nem 30cm de profundidade, mas imediatamente encharcou a saia inteira do seu vestido, que se congelou quase que instantanemente.

Milagrosamente, ela conseguiu se levantar e dar alguns passos com as pernas congeladas.

“Frio frio frio frio”, murmurava ao andar, como um mantra.

Sem sentir as pernas, Anna conseguiu se arrastar até a casinha, que na verdade era o Armazém do Carvalho Errante. E Spa.

Ela entrou na pequena lojinha, que era realmente muito, muito pequena. Bom, ela não esperaria mais nada de uma lojinha no meio do nada. Um homem robusto, de suéter listrado, se encontrava atrás do balcão.

“Boa noite, senhorita”, disse ele, sem se levantar, como se fosse totalmente normal uma garota em trajes de gala congelados entrar em sua loja à meia noite. Aliás, por que o Armazém do Carvalho Errante e Spa estava aberto àquela hora, ela não sabia. Não acreditava que ele possuía muitos clientes fixos de madrugada. “Nossa linha de verão está na promoção! Filtro solar pela metade do preço, biquíni compre um, leve dois, chinelos com 70% de desconto. O que vai levar?”

Anna quase sentiu pena dele.

“Não tem algo mais quente? Botas, roupas de inverno?”

“Ah”, o homem parecia decepcionado. “Isso seria na nossa seção de inverno.”

Anna olhou na direção em que ele apontava e viu a seção de inverno mais triste do Colorado. Havia apenas um par de botas, uma muda de roupas, um par de luvas e um gorro. Pela primeira vez naquele dia, ela pareceu ter sorte. Era tudo do seu tamanho, menos o suéter, que ficou um pouco grande, mas era ainda melhor assim. Finalmente feliz e agasalhada, se dirigiu ao balcão para pagar por tudo. Felizmente, havia trazido dinheiro consigo para o baile, para o caso de pegar um táxi mais tarde.

Enquanto pegava o dinheiro, tentou arrancar alguma coisa do homem do balcão.

“Então, que noite não é? Por acaso, quem sabe, passou uma garota aqui, mas ou menos da minha idade, com cabelos loiros platinados, vestido de gala e olhos azuis? Só por curiosidade.”

“Não, não, a única pessoa louca o suficiente para sair nessa nevasca é você.”

A porta tilintou ao abrir. Anna e o balconista olharam para a figura que adentrava. Estava completamente coberta de neve. O cachecol cobria nariz e boca, deixando apenas um par de olhos azuis visíveis.

Era um homem, disso Anna tinha certeza.

“Bom, você e esse cara”, completou o homem do balcão.

O novo cliente do Armazém do Carvalho Errante abaixou o cachecol, sem se preocupar com a camada de neve que o cobria, revelando um rosto anguloso, rústico, porém jovem. Não poderia ter mais de dezenove anos. Em seguida, tirou o gorro, revelando cabelos loiros muito diferentes dos de Duke Weselton. Enquando os deste eram cor de milho e sempre meticulosamente puxados com gel, os daquele eram loiro escuros, rebeldes.

O balconista ficou animado com o novo cliente. Anna ficou estupefata que alguém mais estivesse naquele armazém de madrugada.

“Boa noite, senhor!”, o homem atrás do balcão entoou. “Nossa linha de verão está na promoção! Filtro solar pela metade do preço, biquíni compre um, leve dois, chinelos com 70% de desconto. O que vai levar?”

“Cenouras. E uma corda. E um machado.”

O homem murchou. Ele nunca venderia nada daqueles produtos de verão.

“São quarenta dólares”, seu tom se tornou muito menos interessado.

O garoto loiro se tornou indignado.

“Quarenta? Isso não vale nem dez!”

O balconista passou a explicar a Lei da Oferta e da Procura, porém Anna não estava prestando atenção. De repente lhe ocorrera o pensamento mais brilhante: o garoto estava coberto de neve, bem mais neve do que caía nos arredores. Ele certamente vinha de um local aonde a nevasca estava bem mais intensa. Onde Elsa provavelmente estava.

Se Anna já não estava suficientemente quente, ela então se incendiou.

“Da onde você veio?”, perguntou, interrompendo a discussão.

O garoto a observou como se a notasse pela primeira vez.

“Não está vendo que estou no meio de uma discussão?”, respondeu, irritado. “Vim da Montanha do Norte. Agora, senhor, dez é tudo o que tenho, você tem que me ajudar…”

“Com dez, posso te oferecer apenas as cenouras e uma visita gratuita ao spa. É um ótimo negócio”, o homem atrás do balcão propõs.

“Eu não preciso de um spa! Preciso da corda e do machado. Olha…”

Anna o interrompeu novamente.

“Pode me levar até lá? Até a Montanha do Norte?”

“Olha, garota, eu não sei quem você é, mas se não percebeu estou no meio de uma discussão. Agora, se me der licença, eu tenho que dar uma lição nesse trapaceiro”, o garoto apontou para o balconista.

O dono do armazém se levantou então pela primeira vez, ficando duas vezes maior.

“Do que você me chamou?”

Ele não parecia nada feliz. Cinco segundos depois, a melhor chance que Anna tinha de chegar até Elsa havia sido expulsa do pequeno armazém e estava de cara na neve do lado de fora.

“Desculpe por isso”, o homem do balcão pediu, sentando-se novamente. “Agora, vão ser apenas as roupas, as botas, a luva e o gorro?”

Anna olhou para as cenouras, a corda e o machado. Aquela seria uma longa noite.

 

 

Ao se aproximar da caminhonete, Anna conseguia ouvir vozes. Não, era uma voz apenas. Estaria o garoto conversando consigo mesmo? Anna parou. Talvez não tivesse sido uma boa ideia afinal. O garoto poderia ser louco. Ela pensou se o homem do armazém devolveria seu dinheiro.

Mas então se lembrou de Elsa, perdida por aí. Precisava continuar, pela irmã. Deu a volta na caminhonete até a garupa, onde o menino estava empoleirado com um… pug com um arco de chifres de rena?

Anna não sabia o que exatamente esperara encontrar, mas certamente não fora aquilo. E também não imaginava que tipo de garoto de dezenove anos colocava chifres de rena em um pug e depois conversava com ele.

Ao ver Anna, ele mostrou-se irritado.

“Ah, você. O que quer?”

Ela respirou fundo.

“Você vai me levar até a Montanha do Norte”, disse, com convicção. Estava boa em dar ordens. Talvez servisse para princesa, afinal.

O garoto riu, sarcástico.

“E por que eu faria isso?”

Anna apenas jogou a sacola nele, contendo as cenouras, a corda e o machado. Ele pareceu surpreso, e ela conteu um sorrisinho triunfante, mantendo a expressão séria e determinada.

“E por que eu não pegaria isso e largaria você aí?”, arqueou a sobrancelha, um olhar malicioso no rosto.

“Porque se alguém não me ajudar, eu provavelmente vou morrer e você vai ter que viver sua vida toda se remoendo com a culpa. Estou lhe fazendo um favor.”

“Você é bem atrevida, não é? Ta aí, gostei. Qual o seu nome?”

Anna disfarçou o quanto gostou do elogio.

“Sou Anna. E você é…?”

“Kristoff.”

“E o pug?”

Kristoff observou o pug, como se tivesse momentaneamente se esquecido de que estava ali.

“Ah, é o Sven.”

Anna assentiu.

“Muito bem, Christopher, vamos partir agora.”

“É Kristoff, não Christopher”, ele revirou os olhos. “E você é louca de sair nessa nevasca, vai morrer com ou sem minha ajuda.”

“Vamos agora”, ela repetiu e, abrindo a porta do carona, entrou na caminhonete.

 

 

A picape de Kristoff parecia ser o único veículo capaz de andar sobre a espessa camada de neve. Flocos se chocavam contra o vidro tão incessantemente que a impediam de ver para onde iam e o aquecimento não funcionava direito, entretanto ela sentia que estavam perto, principalmente porque a situação parecia se agravar a cada instante.

“Estamos perto”, pensou, alto demais.

“Perto do quê?”, Kristoff perguntou. “O que espera encontrar na Montanha do Norte?”

Anna virou seu corpo para ficar de frente para o garoto, que dirigia apenas com uma mão. A neve ao seu redor derretera quase por completo. Ele usava jeans que deveriam estar encharcados, uma blusa de flanela xadrez, casaco de couro e botas. O cachecol e o gorro estavam no banco de trás, junto ao pug Sven, que se concentrava em lambê-los. A neve deve tê-los pegado de surpresa, é claro, como pegara a todos.

“Bom, Kristoff, posso te chamar de Kris?”

Ele nem olhou para ela.

“Não.”

“Toff?”

“Definitivamente não.”

“Algum apelido?”

“Você pode responder à pergunta?”

Anna bufou, insatisfeita. Ele era tão rabugento! Se fosse Hans ali, eles certamente estariam fazendo piadas há horas, se divertindo.

“Minha irmã.”

“E o que sua irmã está fazendo lá?”

“Eu não sei, provavelmente se escondendo depois de ter revelado seus poderes mágicos no baile do colégio.”

Enfim Kristoff olhou para ela, com estranhamento.

“Poderes mágicos? Você é mais louca do que eu pensava.”

“Falou o cara que fala com pugs.”

“Sven é um irmão para mim, não deboche”, ele pareceu sério ao dizer isso, então Anna não contestou, embora fosse algo realmente engraçado. “Que tipo de poderes mágicos? Tipo os X-Men?”

Anna seu de ombros. Não fazia ideia do que era X-Men.

“Ela controla o frio, algo assim. Gelo, neve. Ela causou a nevasca.”

Se esperava que ele risse dela ou duvidasse, ele acreditou de imediato.

“Definitivamente como os X-Men. Ela é como o Bob.”

Ela não se deu ao trabalho de perguntar quem era Bob.

“E o que fizeram à sua irmã para deixá-la tão furiosa a ponto de congelar a cidade inteira?”

Anna bufou, chateada.

“A culpa foi minha. Quero dizer, mais ou menos. Se ela não fosse tão teimosa! Só porque eu comecei a namorar um cara que havia acabado de conhecer…”

“Calma, você aceitou um pedido de namoro de um estranho?”

“Ele não é um estranho! É Hans Christian Andersen VI!”

“Não sei quem é esse cara, mas posso afirmar com 100% de certeza que você não sabe nada sobre ele.”

Como Kristoff podia saber quem era Bob dos X-qualquer coisa e não saber quem era Hans Christian Andersen VI?

“Claro que sei.”

“Qual a cor dos olhos dele?”

Hummm, qual era mesmo? Castanho, ela achava.

“Castanhos”, sua voz não saiu totalmente convencida.

“Qual a comida favorita dele?”

Não chegaram a discutir isso, mas ela tinha quase certeza de que eram…

“Sanduíches…”, mas ela hesitou.

“Você é louca. Não me admira que sua irmã tenha feito o que fez.”

“Não importa se o conheço bem o suficiente ou não! É amor verdadeiro!”

Kristoff soltou uma gargalhada debochada que magoou Anna.

“E o que você sabe sobre amor verdadeiro?”

“Mais do que você! Por acaso é um especialista em amor?”

Kristoff hesitou.

“Não, mas tenho amigos que são.”

“Aham, sei”, Anna não tentou esconder a ironia.

Ficaram em um silêncio desconfortável por alguns minutos. As mãos de Kristoff agarravam o volante até que os nós de seus dedos ficassem brancos.

“Mas que confusão sua irmã armou, hein?”, ele tentou quebrar o gelo. “Atrapalhou todo o meu negócio.”

“Bom, me desculpe por atrapalhar o que quer que você faça com o seu pug de madrugada.”

“O nome dele é Sven.”

Anna virou-se de costas e encarou o pug, que agora rolava no assento de trás.

“Foi mal, Sven.”

“E a propósito”, Kristoff continuou. “Sou lenhador. Estamos perto do Natal, muita gente quer comprar árvores. Isto é, se essa nevasca não impedi-las de sair de casa para fazer isso.”

Mas ela fingiu não ver o olhar desaprovador dele, e permaneceu olhando pela janela.

“Está ficando muito forte, não? O quanto a picape vai aguentar? Ela não pode atolar a qualquer min…”

E, como se Anna também tivesse poderes, a caminhonete atolou.

Kristoff lançou-lhe um olhar de fúria.

“Você e sua grande boca! Agora estamos presos!”

Abriu a porta e saiu.

“Me ajude a impurrar.”

“Você nunca vai conseguir mover isso aí”, observou ela, ao sair da picape também. Estava muito, muito frio.

Era verdade. As rodas da frente estavam completamente afundadas, mesmo com a corrente ao redor. Kristoff bufou ao perceber que a garota estava certa.

“Vamos ter que continuar a pé”, afirmou ela.

“Tá louca?”, Kristoff praticamente gritou, o que fez Anna se encolher. “Essa caminhonete custou mais caro do que tudo que tenho, não posso simplesmente abandoná-la aqui. Acabei de pagar!”

Foi a vez de Anna bufar.

“Olha aqui”, ela deu um passo na direção do garoto, diminuindo a distância entre eles consideravelmente. “Eu preciso achar minha irmã. Imagine se você perdesse o Sven, não iria fazer tudo para achá-lo? Além disso, a minha família é uma das mais ricas do Colorado, tenho certeza que posso te dar uma caminhonete novinha quando resgatarmos minha irmã.”

A impaciência de sua voz fez com que Kristoff se calasse. Bom, isso e a promessa da picape nova. Tudo que o garoto fez foi abrir a porta traseira para libertar Sven.

“Sven, você não está morrendo de frio?”

Ótimo, agora até ela estava conversando com o cachorro. O pug apenas a encarou e cheirou suas botas.

“Ele é uma rena”, observou Kristoff. “Renas vivem na neve.”

“Ele é um pug.”

“Tanto faz.”

 

 

Pareciam estar andando há anos quando chegaram ao outro lado do lago, bem perto da Montanha do Norte. Ali, o frio havia congelado as folhas que ainda restavam nas árvores instantâneamente, criando uma bela obra de arte.

“Uau”, foi o que Kristoff verbalizou e Anna pensou. “Nunca vi nada assim.”

“Acho que ninguém já viu algo assim”, completou ela, também extrememente impressionada com a beleza das folhas de gelo.

Sven parecia estar achando-as deliciosas.

“Eu não sabia que o inverno podia ser tão bonito assim”, continuou ela.

“Não é mesmo?”, disse um voz que não era nem dela, nem de Kristoff. Eles se entreolharam, confusos. Anna olhou ao redor. Não via ninguém.

“Mas é tudo muito branco”, continuou a voz. “Devíamos pintar. De amarelo! Não. Amarelo e neve? Ia ficar ridículo.”

A voz estava muito perto agora. Na verdade, parecia vir de debaixo deles…

Anna e Kristoff olharam para baixo ao mesmo tempo. Pularam de susto ao se depararem com um menino pequeno, de uns sete anos, vestido inteiramente de branco. O nariz estava vermelho. Ele parecia um boneco de neve.

“Meu Deus!”, Anna murmurou, assustada.

“Quem é você?”, Kristoff ergueu uma sobrancelha.

O que um menino dessa idade estava fazendo vagando por aí?

“Meu nome é Olaf, e eu gosto de abraços quentinhos”, respondeu o menino, como se essa fosse a coisa mais natural do mundo.

Anna o pegou pelas axilas e o aninhou em seus braços.

“Ei”, Kristoff disse. “Eu também gosto de abraços quentinhos!”

Mas a garota apenas o encarou por debaixo dos cílios, franzindo o cenho.

“E você é…?”, Olaf encarou Anna.

“Ah! Eu sou a Anna.”

O menino concordou, se virando para Kristoff e Sven.

“E quem é o animal?”

“É o Sven.”

“E o pug, é?”

“Anh… Sven?”

“Os dois? Ah, ok, facilita as coisas.”

Kristoff e Anna se entreolharam. Que menino peculiar era aquele, e o que ele estava fazendo no meio do nada durante uma nevasca?

“O que você está fazendo aqui, Olaf?”, ela perguntou ao garotinho.

“Me perdi da minha mãe durante a nevasca”, disse, como se fosse normal que a mãe o perdesse, e começou a brincar com a ponta do gorro de Anna.

“Bom”, Kristoff coçou a cabeça. “Vamos ter que lidar com isso depois.”

“Olaf”, chamou Anna. O garoto soltou o gorro e olhou para ela. “Você por acaso viu uma garota loira de vestido longo passar por aqui?”

“Aham, por quê?”

Os olhos de Anna se iluminaram. Ela e Kristoff trocaram olhares.

“Você sabe para onde ela foi?”

“Aham, por quê?”

“Acha que pode nos mostrar o caminho?”

“Aham, por quê?”

Kristoff bateu na própria testa.

“Ah, pelo amor de Deus, vamos logo com isso, não temos a noite inteira!”

Olaf o encarou com olhinhos semicerrados furiosos que ficavam uma fofura com o narizinho rosado.

“Para com isso, Sven, estou concentrado aqui.”

“Então pode nos levar até ela?”

“Aham, por quê?”

“Eu te digo porquê”, Kristoff se aproximou para ficar ombro a ombro com Anna. Sven estava a seus pés. “É a irmã dela, Elsa. Ela tem que fazer essa nevasca parar e quem sabe trazer um verãozinho para compensar, não é?”

Anna lhe lançou um olhar reprovador.

“O que foi? É verdade!”, rebateu ele, na defensiva.

“O verão?”, os olhinhos de Olaf se iluminaram. “Ah, eu adoro o verão. Com o sol, coisas quentinhas… Gosto de imaginar tudo o que farei no verão. Montar castelos, nadar na piscina, correr na grama!”

“Isso significa que vai nos ajudar?”, Kristoff perguntou, esperançoso.

Era engraçado que estivessem contando com a ajuda de um garoto com quase um terço da idade deles.

Olaf pulou do colo de Anna e começou a puxá-la pela barra do suéter.

“Elsa está por aqui. Vamos!”

 

 

Poucas coisas no Colorado eram mais impressionantes que a mansão dos Haig. Mas o castelo feito inteiramente de gelo de Elsa era uma dessas coisas. Anna, Kristoff, Sven e Olaf pararam perplexos diante das portas transparentes e escorregadias da grande construção. Anna duvidava de ter visto algo tão belo um dia.

“Que maneeeeiro!”, entoou Olaf. “Vamos entrar?”

Anna se agachou na frente dele, para que ficassem cara a cara. Por mais que entendesse a vontade de uma criança de sete anos em entrar em um palácio de gelo, era algo que precisava fazer sozinha.

“Você pode esperar aqui um pouquinho, Olaf?”

“Por quê?”, o menino choramingou.

“Por favor.”

Ele cruzou os braços, emburrado, porém concordou.

“Tá bom.”

Ele se sentou no degrau e pegou Sven nos braços, arrumando seus chifres de rena.

“Muito bem”, disse Kristoff. “Vamos lá.”

“Você também fica, Kristoff.”

“O queeeê? Que injustiça!”

“Da última vez que apresentei um garoto à Elsa, ela congelou a cidade toda.”

Kristoff se calou.

“Ok, bom argumento”, embora não parecesse nada feliz. “Você tem um minuto.”

Anna assentiu. Olaf começou uma contagem regressiva quando ela empurrou as pesadas portas do castelo e o adentrou. Era majestoso. Uma grande escada de gelo se encaracolava pela parede e uma fonte congelada marcava o centro do hall de entrada.

Mas o que fez Anna prender a respiração foi a figura de Elsa que surgiu no topo da escada. Ela estava muito diferente. Cheia de luz e alegria. O vestido era diferente, azul claro e brilhante, poderoso. Anna se sentiu uma mendiga perto dela. O cabelo estava em uma trança solta rebelde que só a deixava mais bonita.

“Uau, você está linda!”, balbuciou.

“Anna! Obrigada. O que está fazendo aqui?”, Elsa perguntou, estupefata.

“Eu vim te buscar, Elsa!”, ela conseguiu de algum modo responder.

“É muita gentileza sua, Anna, mas você deve voltar. O baile precisa de você. Estou bem aqui”, ela parecia realmente feliz. “Finalmente posso ser quem sou.”

“Mas Elsa, você precisa voltar!”

“Não, não preciso! Você deve ir sem mim.”

“Mas Elsa, você não entende!”

“O quê?”

“Você congelou a cidade inteira!”

O mundo de Elsa pareceu desabar. Sua expressão era puro medo.

“Não! Não pode ser! Como fui tola, eu nunca serei livre!”

Anna começou a subir a escada, para acalmar a irmã, mas Elsa começou a se afastar.

“Calma, Elsa! Vai dar tudo certo! Você pode voltar, pode acabar com a nevasca!”

Elsa se virou para Anna, deseperada.

“Você não entende, Anna? Eu não posso! Eu não sei como!”

Um temor cresceu no peito da Haig mais nova. Elsa sumiu no andar de cima. Anna correu atrás dela.

“Eu posso te ajudar, podemos resolver isso juntas!”

“Vá embora, Anna!”

“Elsa, por favor…”

“Eu disse VÁ EMBORA!”

Como em um dejà-vú, Elsa se virou, lançando sua magia por todos os lados. Não foram fincas de gelo que atingiram o coração de Anna, mas faíscas azuis.

A garota caiu no chão.

“Anna…”, Elsa hesitou em se aproximar, para não machucá-la ainda mais.

Por sorte, naquele momento Kristoff e Olaf entraram no salão, seguidos de Sven.

“Anna!”, Kristoff correu até a garota, que já se levantava sozinha, porém com dificuldade. Ele e Olaf a ajudaram.

“Elsa”, Anna tentou falar, mas estava fraca.

“Vá embora, Anna. O melhor a fazer é me deixar em paz.”

Com essas palavras, ela criou um gigante monstro de neve, que os jogou para fora do castelo.

“Seu marshmallow ridículo!”, Kristoff ergueu o braço para jogar uma bola de neve no monstro de neve, mas Anna o impediu.

“Para com isso, Kristoff”, ela já soava bem melhor e mais como Anna, o que fez com que ele se sentisse aliviado. “Você só vai irritá-lo.”

“Ok”, disse ele, abaixando o braço, mas logo em seguida lançando a bola no monstro. “Toma isso, marshmallow!”

O monstro não pareceu nada feliz.

“Ou-ou”, Olaf disse. “Corram!”

Sven foi o primeiro a obedecer. Correram com o marshmallow ao seu encalço, até que chegaram a um precipício.

“E agora?”, Olaf e Sven olharam para eles na busca da salvação. Anna não tinha ideia. Olhou para Kristoff.

“Agora vamos pular.”

“Você perdeu a cabeça?”, Anna praticamente gritou.

“A neve está muito espessa lá embaixo. Vamos sobreviver”, foi o que disse, encarando-a nos olhos, mas ela não pareceu convencida. “Você não confia em mim?”

Ele lhe estendeu a mão. Ela pegou.

“Na verdade, não.”

O marshmallow estava muito perto agora. De mãos dadas, pularam.

Anna gritou como nunca e podia ouvir Kristoff e Olaf gritando ao seu lado. Até o pobre Sven gania um pouco acima. Ela e Kristoff caíram de pé, lado a lado, enfiados na neve fofa até a cintura, o que amorteceu a queda. O pequeno Olaf afundara até a cabeça. Sven, o sortudo, estava nos braços de Kristoff. Pugzinho maldito.

“Você está bem?”, Kristoff lhe perguntou, ao que ela assentiu.

Com a ajuda dele, Anna se desenterrou e puxou Olaf para fora da neve. Quando terminaram, Kristoff olhou para ela, espantado.

“Anna, seu cabelo!”

Ela ficou um pouco ofendida, mas tentou levar na brincadeira.

“O seu também não está nada bom, Kristoff”, ela riu. “Afinal, caímos de um penhasco!”

Ele balançou a cabeça.

“Não, não é disso que estou falando. Ele está ficando branco!”, Kristoff tocou em uma mecha que, para a surpresa de Ana, não estava ruiva como normalmente, mas cinza claro.

“Quando Elsa me atingiu…”

Kristoff assentiu.

“Precisamos de ajuda. Venha, eu sei quem pode nos ajudar.”

Ela tinha uma vaga sensação de que sabia quem era.

“Seus amigos especialistas em amor?”

“Esses mesmo.”

 

 

Quando Anna e Kristoff adentraram a clareira e ela viu um grupo de figuras vestidas de preto como em uma seita, a caçula Haig quase deu meia volta.

Kristoff seguiu para cumprimentar os supostos “amigos especialistas em amor”, que eram um grupo de gótico sinistros no meio da floresta. Anna parou, com Olaf ao seu lado. Sven correu até os pés de uma das garotas góticas e começou a cheirá-lo.

“Eles são psicopatas?”, Olaf perguntou pelo canto da boca.

“Não sei”, Anna respondeu, sem tirar os olhos da cena bizarra.

“Corra enquanto puder”, o menino sussurrou. “Vou distraí-los.”

E avançando com pequeninos passos antes que Anna pudesse absorver qualquer palavra, Olaf acenou.

“Olá, amigos do Sven! Como vão vocês?”

Os góticos olharam para ele, como se finalmente percebessem que Kristoff estava acompanhado.

Anna continuou parada, incapaz de se mover.

“Anna”, Olaf sussurrou. “Por que não está correndo?”

Anna correu, porém atrás de Olaf, para conter o garoto. Sabe-se lá quem eram aquelas pessoas e o que podiam fazer.

Uma das góticas arregalou os olhos ao ver Anna.

“Kristoff trouxe uma garota!”

Kristoff bateu na própria testa. As outras figuras de preto encararam Anna. Uma série de cochichos se iniciou enquanto ela se aproximava com Olaf.

“Ela é bonita demais para ele!”

“Será que ela já sentiu o cheiro dele?”

“Humpf! Vocês nem conhecem a menina e já estão dizendo que ela é boa demais!”

Kristoff fez seu melhor gesto de “ignore” para Anna, que se aproximava com cautela. Porém, quanto mais perto ela chegava do grupo, menos gótico ele parecia. Na verdade, as pessoas estavam todas vestidas de preto, mas não pareciam nem um pouco góticas. Só normais.

Uma das meninas, com um sobretudo preto e cabelos loiros, sorriu para ela, simpática. Anna suspirou. Bem, pelo menos não pareciam psicopatas, embora estar em uma clareira na floresta no meio da noite fosse suspeito.

“Essa é minha irmã mais velha, Bulda”, Kristoff indicou a garota loira. “E esse é o clube dela, mais conhecido como o Clube Troll.”

Clube ou seita?, era o que Anna queria perguntar, mas apenas sorriu. Tudo aquilo ainda era muito bizarro. Não que ela tivesse moral para falar. Sua irmã mais velha tinha poderes mágicos, o que de certa forma era bem mais esquisito do que fazer parte de um clube que se reune de preto no meio da noite.

“E o que é o Clube Troll?”, perguntou.

“Regra número um do Clube Troll”, Bulda falou. “Nunca fale sobre o Clube Troll.”

Kristoff deu de ombros, em um gesto que dizia “também não sei de nada”.

“Ok…”, Anna evitou demonstrar o quão bizarro era aquilo.

“Mas e então, vocês estão namorando?”, um outro garoto perguntou.

Anna não soube como reagir.

“Eu… anh… nós…”

“Clint!”, Kristoff parecia não saber o que fazer. “Somos só amigos.”

Na verdade, Anna nem sabia o que eram. Kristoff era o cara que ajudara a encontrar sua irmã, mas depois de tudo o que acontecera, não se via despedindo-se dele para sempre. Seria muito triste nunca mais ver Kristoff. Ela estava começando a gostar do jeito dele.

“Por quê?”, Bulda arqueou as sobrancelhas e olhou para Anna, como se ela fosse uma idiota. “Por que você não namora meu irmão? “

“Ai, não”, Kristoff fechou os olhos.

“É por causa do jeito tosco como ele anda?”, Clint perguntou.

“Ou por que os pés dele são grandes demais?”, outra garota acrescentou.

“Ei! Não são não!”, Kristoff observou os pés.

“Mas você nunca vai encontrar alguém tão sensível e fofo”, Bulda abraçou o irmão, que lutava para encontrar um meio de se livrar da sessão de vergonha.

“Ok, ele precisa de alguns remendos”, a morena observou. “Mas todo mundo tem defeitos, né?”

“Isso mesmo!”, Bulda exibiu um sorriso de satisfação.

“Gente, isso não é sobre mim!”, Kristoff disse, em vão.

“E todos os defeitos são resolvidos com amor!”, Bulda ignorou-o

Quando Kristoff mencionou amigos “especialistas em amor”, Anna não imaginara nada parecido. Ela estava praticamente sendo empurrada para o garoto! Não que abominasse a ideia de namorar Kristoff, mas mal o conhecia!

Uma vozinha em sua cabeça, porém, a lembrou de que também não conhecia Hans, mas estavam namorando mesmo assim.

“Gente, dá para parar?”, Kristoff já estava tão exasperado que ela teve de se segurar para não rir diante do desespero dele. Era té mesmo bonitinho. “Temos um problema real aqui!”

“Mas é por que ele é um excluído social?”, Clint continuou.

“Isso não é verdade!”

“Olha gente…”, Anna tentou explicar.

“Nós sabemos”, garantiu Bulda, segurando as mãos de Anna, embora esta achasse que na verdade não, ela não sabia. “O amor é uma força estranha e poderosa. As pessoas fazem escolhas ruins se estão bravas, com medo ou estressadas, mas só é preciso um pouco de amor para trazer de volta o melhor nelas.”

As palavras morreram na garganta de Anna. Ela se lembrou de como Elsa estava brava com ela antes de perder o controle dos poderes. Se lembrou do medo em seus olhos ao correr sobre o lado, congelando a cidade inteira. E se recordou de como ela ficou estressada ao saber o que tinha feito sem ter nem ideia de como consertar aquela confusão.

Elsa havia feito escolhas ruins, mas ela só precisava de um pouco de amor.

Anna nunca gostara tanto de Bulda. Na verdade, era a primeira vez que realmente gostava dela.

Kristoff, no entanto, perdera a paciência.

“ELA ESTÁ NAMORANDO OUTRO CARA!”, gritou.

Bulda e as outras garotas murcharam

“Mas você não pode terminar?’, Clint perguntou à Anna, na maior cara de pau.

“Não!”, respondeu ela, ofendida.

“Gente, calma, temos algo sério a…”

“Kristoff, eu não estou me sentindo muit…”

E então Anna caiu nos braços do garoto, fraca.

“Anna!”

A garota estava semiconsciente, mas podia ouvir vozes.

“Pabbie, ajude-a! Você já leu tudo sobre magia, deve saber de alguma coisa. Olhe o cabelo dela, está ficando branco!”

“Atingiu o coração dela”, uma voz que Anna presumiu ser Pabbie disse em seguida. “O cérebro é fácil de curar, mas o coração… Só um ato de amor verdadeiro pode curar.”

“Amor verdadeiro!”, comemorou o pequeno Olaf.

“Hans!”, Kristoff lembrou. “Venha, Olaf, temos que levá-la até Hans! Obrigado Bulda, Pabbie, galera! Sven, vamos!”

 

 

Anna não tinha nem ideia de como chegara à Arendelle High School, mas ali estava, em uma maca da enfermaria, com Hans a observando preocupado. Procurou por Kristoff, mas ele não estava em lugar algum. Nem ele, nem Sven, nem Olaf. Por algum motivo, o coração de Anna se apertou.

“Anna!”, Hans se levantou ao ver que ela estava acordada. “Graças a Deus!”

Ela se sentia terrivelmente fraca.

“Hans…”, sua voz mal saía. “Hans, você precisa me beijar.”

Ele se aproximou dela, arrumando o cobertor.

“Calma, Anna, você está delirando. O que aconteceu? Quem era aquele fazendeiro que te trouxe?”

“Kristoff não é um fazendeiro”, foi tudo o que conseguiu dizer, por incrível que pareça.

“Tanto faz, Anna. Do que importa?”

Mas Kristoff era importante. Anna gostaria muito que ele estivesse ali com ela. Mas esses pensamentos eram nublados, confusos, então ela os engavetou.

“Hans, Elsa me atingiu.”

“O quê? Mas você disse que ela jamais te machucaria!”

“Ela não fez de propósito!”, Anna já estava irritada. “Hans, a única coisa que pode me curar é um ato de amor verdadeiro, se não eu irei morrer.”

Hans arregalou os olhos.

“Um beijo de amor verdadeiro.”

Ele se inclinou sobre ela e Anna fechou os olhos. Quando estavam quase se beijando, entretanto, Hans se afastou.

“Oh, Anna”, ela abriu os olhos. “Se apenas houvesse alguém por aí que te amasse!”

Ela estava confusa.

“O quê?”

Hans não a amava? Ele a pedira em namoro. Tudo o que fizera indicava que sim.

“Você disse que sim”, Anna disse.

Hans fechou as cortinas da enfermaria.

“Como décimo terceiro Andersen, eu nunca fui alguém. Sabe o que é viver sob a sombra de doze irmãos perfeitos? Eu nunca fui bom o suficiente”, ele se virou para Anna, que não conseguia acreditar no que estava ouvindo. “Quando meus pais me disseram que eu devria começar a fazer algo da minha vida, como os meus irmãos, ou eles me desertariam, não levei a sério.”

Hans deu a volta ao redor da maca onde Anna estava deitada.

“Mas então eles me mandaram para esse fim de mundo e me mandaram “repensar minhas ações”. Humpf! Como se eu precisasse. Eu sabia que meu único jeito de agradá-los seria me mostrando comprometido uma vez na vida. E qual era o único jeito de fazer isso de maneira fácil? Namorar Elsa parecia a ideia perfeita, pois além de uma patinadora famosa era bonita, rica e de boa família, o que certamente causaria ótima impressão nos meus pais sobre minha mudança de caráter.”

“O quê?”, Anna ficava cada vez mais chocada.

“Porém, ninguém parecia conseguir chegar até ela. Mas você, Anna… Você estava tão desesperada para que alguém a amasse! Foi fácil demais convencê-la que eu estava apaixonado por você. Pensei que, já que não poderia ter a mais velha, a mais nova haveria de servir a meus pais. E, depois que reconquistasse a confiança deles, poderia dar um chute na sua bunda.”

Ele desligou o aquecedor.

Anna não podia acreditar que havia sido tão idiota. Elsa havia lhe avisado, Kristoff havia lhe avisado. Mas ela não lhes dera ouvido. Fora cega e idiota.

“Hans, não!”, Anna tentou se levantar, mas estava fraca demais. “Pare!”

Mas Hans não parou.

“Mas tudo ocorreu melhor do que o esperado! Agora, não preciso ter uma namorada de boa família. Posso impressionar meus pais com meus próprios talentos. “Hans Christian Andersen VI captura aberração do gelo”. Que tal? Não soa uma ótima manchete?”

“Hans, por favor…”

“E você ainda foi burra o suficiente para ir atrás dela! Agora, tudo o que preciso fazer é deixar você morrer, capturar Elsa e acabar com esse inverno. Você deixou tudo mais fácil para mim, Anna. Obrigado, por me tornar o herói que salvará essa cidade da destruição.”

“Você não vai chegar a lugar nenhum com isso”, Anna disse, mas ambos sabiam que era mentira.

Hans abriu a porta e, olhando uma última vez para a caçula Haig, disse:

“Na verdade, eu já cheguei.”

E a deixou, sozinha, no frio, trancando a porta. Anna não tinha mais forças para se levantar e impedi-lo.

“Por favor… Alguém… Ajude…”, mas sua voz soava fraca, e ninguém escutaria.

Ela precisava impedir Hans de matar Elsa. Naquele momento, pouco lhe importava se sobreviveria ou não. Mas a ideia daquele canalha matar sua irmã era demais. Se arrastou para fora da maca, praticamente se jogando no chão. Conseguiu chegar até a porta, mas estava realmente trancada. Anna se encolheu no chão, tremendo.

Morreria ali, sozinha e triste.

Estava sentindo o fim chegar quando a porta se abriu e Olaf entrou.

“Anna!”, ele correu para ligar o aquecedor.

“Olaf!”, Anna não sabia se ficava feliz ou preocupada em vê-lo. “Por que você não voltou para sua mãe?”

Olaf correu até ela.

“Não achei ela”, ele não parecia nem um pouco preocupado. “Fugi do Kristoff para vir atrás de você. Por que seu cabelo ainda está branco? E o seu beijo?”

Os cantos da boca de Anna se curvaram para baixo.

“Eu estava errada sobre Hans. Não era amor verdadeiro.”

“O quê? Então precisamos achar outro ato de amor verdadeiro para você”, ele se sentou ao lado dela. Alguns segundos se passaram. A única coisa que aconteceu foi o ambiente se aquecer um pouquinho. Olaf se parecia tanto com um boneco de neve que Anna quase conseguia o imaginar derretendo.

“Alguma ideia aí?”

“Não, Olaf. Eu não sei o que o amor é.”

“Tudo bem”, Olaf olhou para ela. “Eu sei.”

Anna duvidava muito que o menino de sete anos soubesse algo sobre o amor, mas deixou-o falar, em parte porque não seria tão ruim morrer ouvindo uma criança falar sobre sua percepção do amor.

“Amar é colocar as necessidades de uma pessoa na frente da sua como, você sabe, Kristoff fez quando te trouxe aqui para o Hans e te perdeu para sempre.”

Anna quase teve um ataque cardíaco e morreu antes da hora.

“Kristoff… Me ama?”

Ela tentou se lembrar de algo que tivesse indicado isso. O modo como ele ficou com vergonha quando a irmã e os amigos sugeriram que namorássemos. Como ele se preocupou com ela quando Elsa a atingiu. Quando ele segurou sua mão para que pulassem juntos do penhasco. Como pudera ser tão cega?

Olaf colocou a mãozinha sobre o ombro de Anna e o afagou.

“Uau, você realmente não sabe nada sobre o amor.”

Naquele momento, a janela se abriu com o vento forte, rapidamente esfriando o ambiente.

“Eu cuido disso!”, Olaf se levantou, correndo para fechar a janela. Porém, quando olhou através dela, parou.

“Olha! Estou vendo Kristoff e Sven! Eles estão correndo para cá!”

O peito de Anna se encheu de alegria e ela subitamente se sentiu aquecida.

“Eu acho que estava errado, afinal. Kristoff não te ama o suficiente para te abandonar…”

“Olaf, me ajude a levantar.”

“Não!”, ele correu até ela e a forçou a continuar sentada. Você precisa ficar aqui, aquecida.”

“Olaf, preciso que me leva até Kristoff!”

“Por quê?”

Ela apenas inclinou a cabeça. Fora tão estúpida! Era por isso que, mesmo com Hans na sala, pensara em Kristoff. Fora por isso que o defendera quando Hans o menosprezara. Ela também amava Kristoff!

“AHHHHHH”, Olaf deu pulinhos. “É O SEU ATO DE AMOR!! Vamos, vamos!”

 

 

A nevasca estava muito forte fora da escola. Elsa com certeza estava perto. Anna só esperava que Hans não a tivesse capturado. Ela não via nada a sua frente.

“Kristoff!”, gritou, sem resposta.

“Kristofffffff!”, Olaf a ajudava.

Mas Anna estava cada vez mais fraca para continuar, e nem o amor que aquecia seu coração era capaz de fazê-la continuar. Quando estava quase desistindo, um grito de Olaf obteve resposta.

“Anna!”, era indiscutivelmente a voz de Kristoff.

Como que por mágica, naquele momento a nevasca cessou completamente. Anna pode ver Kristoff a poucos metros. Começou a andar na direção dele, estava tão perto, ela chegaria a tempo…

Foi quando viu, à sua esquerda, outra cena. Elsa, de joelhos sobre o gelo, chorando sobre as mãos. Atrás dela, Hans, como um carrasco, lhe apontava uma arma como se prestes a fuzilá-la.

Anna olhou de Kristoff para a irmã. Não importava, ela tinha de salvá-la. fez uma curva brusca e correu com todas as forças que lhe restavam, se colocando na frente de Elsa bem no momento em que Hans disparou.

E naquele exato segundo, o coração de Anna se congelou completamente. A garota virou gelo, e a bala se estilhaçou contra ela. Hans, estupefato, deixou a arma cair, e ela escorregou para longe.

Elsa se levantou e, ao ver a irmã congelada, seu choro se acentuou. Ela abraçou a estátua de gelo da irmã.

“Oh, Anna! É tudo culpa minha! Me perdoe, por favor!”

Enquanto chorava sobre a irmã, o gelo começou a derreter em volta de Anna, que rapidamente voltou ao normal. Elsa, ao perceber tal coisa, chorou ainda mais, dessa vez de alegria.

“Anna!”

Olaf, ali perto, sorriu.

“Um ato de amor verdadeiro! Você conseguiu, Anna!”

A mais nova das irmãs sorriu e abraçou Elsa.

“É isso!”, a mais velha parecia extremamente feliz. “Amor!”

E, canalizando toda aquela felicidade, Elsa invocou cada floco de neve, cada cristal de gelo ali presente. Como em um processo reverso, subiram ao céu formando a imagem de um floco de neve gigante, para então se dissolverem no azul.

Estava quente novamente, e o inverno havia ido embora, graças ao amor.

 

 

Depois que Hans Christian Andersen VI fora preso por dupla tentativa de assassinato, o escandâlo da família Andersen foi estampado por todas as revistas dos Estados Unidos. “Bom, pelo menos agora ele é famoso”, dissera Elsa. Foi descoberto também que Duke Weselton conspirara com o herdeiro contra as irmãs Haig, e por isso ele fora indiciado a cumprir algumas horas de serviço comunitário e fora expulso da Arendelle High School.

Olaf acabara achando a mãe, Genda, que estava muito preocupada com o sumiço do filho. Aceitou de bom grado a oferta de Anna para seus serviços como babá.

E Kristoff e Anna, bem, eles tiveram alguns encontros desastrosos depois de toda aquela aventura, mas o namoro caminhou bem. Ela teve muitas chances de ver Sven sem chifres de rena, de andar na nova picape dele e, é claro, de beijá-lo.

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