Cartas para Sofia

22 de abril de 2016

Sexta-feira

Belo Horizonte, Brasil

Oi, Sofia.

Faz tempo que não lhe escrevo. Por muito tempo, devo dizer, não senti necessidade para tal. É triste pensar que só lhe procuro em momentos de necessidade – deveria ser mais afetuosa, provavelmente. Mas a verdade é que não sou uma pessoa muito legal. Cada vez mais tenho consciência disso. Estamos tão eternamente buscando a aprovação alheia que nos esquecemos que não conquistamos as pessoas que importam pela aparência ou pela personalidade misteriosa de mocinhas de cinema. Sinto que me esqueço cada vez mais de ser simpática com as pessoas.

Não sei quando me tornei tão egoísta, egocêntrica. Cada vez mais meus discursos giram em torno de mim mesma e meu olhar é incapaz de captar o sentimento alheio. É um vício que já não consigo frear, e pergunto-me se ele acabará por me consumir. Não quero ser uma pessoa má, Sofia. Mas não sei mais o que fazer.

Acho que então só posso culpar a mim mesma por minha soledade, portanto. Esta é uma palavra nova para hoje. Significa solidão. Minha irmã está aqui comigo tocando piano, uma melodia tão singela quanto triste, parece até mesmo minha trilha sonora. Por que estou me sentindo solitária? Sinceramente, não sei ao certo.

Há coisas demais que tenho guardado para mim. Uma caixa de segredos transborda debaixo da minha cama. Sentimentos suscitados, serendipidades secretas, tergiversações que parecem não fenecer. E por que eu guardo essa caixa cheia de envelopes lacrados, segredos trancados, ao invés de mandá-los pelo correio? Medo, provavelmente.

Medo de dizer em voz alta. Tudo que quero dizer soa idiota ou convencido na minha cabeça. Minha fobia de soledade acabou me deixando mais sozinha ainda. Quanto mais guardo as coisas para mim mesma, mais sinto um muro se formado entre mim e o resto do mundo. Cada envelope que lacro é um novo tijolo na parede.

Essa soledade me consome como o fogo. É algo até mesmo claustrofóbico. Em alguns momentos, não consigo respirar direito. Não sei bem o que estou sentindo. Não sei ao certo com quem desabafar. Fico em duvida entre omitir ou ser sincera. Será a verdade ou a mentira que magoa as pessoas? Não tenho ideia. Provavelmente ambas, o que não me ajuda nem um pouco.

Epifanias terríveis

A palavra epifania descreve o momento exato em que você se dá conta de algo completamente inesperado mas que faz todo sentido. Clarice Lispector gostava dessa palavra, e gosto também. Minha soledade foi uma epifania terrível, com certeza. Várias vezes tenho de parar essa carta para respirar fundo e meu peito se contrai ao lembrar desse sentimento que obscurece meu coração.

Mas há outras epifanias.

Epifania número 1: não existe o amor dos livros. Claro que eu já sabia disso, mas no fundo esperava estar errada. Estou cada vez mais convencidade de que sempre estive certa, o que me deixa realmente muito triste. Garotos conseguem ser tão antiquados, babacas e idiotas. Sério.

Epifania 2: garotas conseguem ser piores que garotos. Por mais que eles sejam orgulhosos de dar raiva, completamente indiferentes ao sentimento amoroso e acharem que romance é coisa de gay, as mulheres são piores por quererem em excesso que eles sejam o contrário. Às vezes tenho certeza que Hollywood é dona de todas as clínicas psicológicas do mundo, porque ela certamente me causa muitos problemas terapêuticos com essas visões românticas da vida. Não suporto mais ser tão idiota conscientemente.

Ou seja, basicamente minhas epifanias são sobre como toda essa situação de amor de cinema é cruel e ridícula. As garotas claramente não conseguem se desapegar dessa visão quando os garotos claramente são imaturos demais para querer qualquer coisa assim. Acho que quando chegamos na vida adulta, as mulheres já cansaram de sonhar e os homens já se cansaram de sustentar tanto orgulho. Os dois lados fazem concessões e se chega a um meio termo.

Isso é um pouco triste. Na verdade, muito triste.

Estou lhe contando isso porque tenho uma amiga que está presa dentro dessa realidade. Na verdade, acho que a maioria de nós está, inclusive eu e Benjamin. Mas minhas epifanias vieram da situação dela, então deixemos minha vida egocêntrica de lado por um segundo para falar dessa amiga minha.

O nome dela é Camila. Temos um amigo em comum, Rodrigo. Ele é o garoto mais idiota que provavelmente já tive a infelicidade de conhecer, mas é charmoso, engraçado e galanteador, então somos amigas dele. O passatempo dele é pegar novinhas e flertar com todas. Isso inclui a gente, lógico.

Acho que não sou a única que sempre pensou no que faria se esse flerte algum dia fosse para frente. Quero dizer, ele é bonito e tudo mais, mas sinceramente eu nunca quis ser mais uma na listinha dele. Acho que Camila também pensa mais ou menos assim. Porém, ela foi estúpida o suficiente para deixar que ele a beijasse.

Não vou julgá-la, porque sinceramente eu acho que faria o mesmo. É bom se sentir desejada, às vezes difícil demais não deixar isso subir à cabeça. Camila é uma garota incrível, na verdade. Muito bonita, muito inteligente, consegue ser simpática e divertida. Se Rodrigo realmente só colocá-la em sua lista, está realmente provando ser um idiota completo dessa vez.

No entanto, Camila está triste. E não a culpo, embora devesse. Temos que parar de nos lamentar pelos erros dos outros, pensando o que deveríamos ter feito diferente. Não fizemos nada de errado. Por que é tão difícil simplesmente nos desligarmos? Por que nos dá tanta satisfação ter alguém? Culpo os hormônios.

Às vezes, sinto que seria bem mais fácil ser uma esponja.

Nós damos poder aos garotos fazerem isso com nós mesmas. E, mesmo consciente disso, continuamos fazendo. No fundo, as garotas amam demais os garotos. E eles só são egocêntricos demais para valorizarem isso. Estiu cansada, Sofia, de crescer em uma sociedade que não enxerga isso. Estou cansada de fazer parte dessa sociedade.

Você se sente assim? Oh céus, espero que não. Esta não deveria ser uma carta para que alguém se identificasse, ainda sim sinto que muitos irão. Algum conselho, Sofia? Ainda espero algum milagre. Tenho que parar de sonhar.

Helena

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